Bragança: a região que se vai reduzindo à autoestrada à espera do comboio do Tua

O Plano de Mobilidade Turística e Quotidiana do Tua, com o regresso do comboio num pequeno troço, é atualmente, o projeto de maior envergadura no distrito de Bragança, repetidamente adiado, enquanto a região vai perdendo a crença e habitantes.

Há mais de uma década que, com a construção da barragem do Foz Tua, foi anunciada a contrapartida, apresentada como alavanca para o desenvolvimento regional, com a atração de turistas ao Vale do Tua, partilhado pelos distritos de Bragança e Vila Real, no sul de Trás-os-Montes.

Nunca faltou dinheiro disponibilizado pela EDP, mas o projeto mantém-se num para-arranca sem se conseguir colocar em movimento os barcos, o comboio num pequeno troço da linha do Tua e os transportes para as populações numa região com cada vez menos gente, que se vai reduzindo, para norte, ao eixo da autoestrada A4.

Os concelhos deste eixo (Bragança, Macedo de Cavaleiros e Mirandela) concentram, no norte do distrito, metade da população residente.

A sul, nem a riqueza agrícola consegue estagnar o despovoamento com o recurso a mão-de-obra estrangeira na apanha das produções com maior peso económico, como o azeite, os frutos secos, a uva ou a maçã, como observou à Lusa Teófilo Vaz, diretor do Jornal Nordeste.

O projeto do Tua foi pensado para chamar turistas e dinamizar economicamente os cinco concelhos do vale onde cresce a desconfiança, como já reconheceu o presidente da Agência para o Desenvolvimento Regional do Vale do Tua (ADRVT).

João Gonçalves pede desculpa às populações pelos atrasos que envolvem várias entidades locais e nacionais e é cauteloso com novas datas, comprometendo-se apenas com esforços para avançar no outono com as últimas obras para a segurança da linha, de maneira a que se possa aspirar ao arranque da operação no próximo verão.

Um “projeto em completo desnorte” é como Daniel Conde, fundador do Movimento Cívico pela Linha do Tua, resume o impasse, considerando que “nem mesmo os mais otimistas poderão continuar a almejar ver neste caos um vislumbre de bom senso”.

O descrédito do projeto entre a população e utentes é total, e o avanço destas obras no terreno dificilmente será concluído até ao final do ano, como acalenta o presidente da ADRVT”, defende.

Na opinião de Teófilo Vaz, que há várias décadas escreve e noticia a região, este é um projeto que “de Mirandela para cima diz pouco” ao resto do distrito. O diretor do Jornal Nordeste duvida que o Tua “seja uma solução estrutural” para todo o Nordeste Transmontano ou que “o turismo alguma vez vá ter peso no produto interno” regional.

No seu entender, as Comunidade Intermunicipais e as associações de municípios “têm de se conjugar e aparecer no mercado a fazer propostas”, tal como o Estado deve comprometer-se “a criar condições de privilégio objetivo” e definir claramente estas zonas como prioritárias.

Esta é uma das reivindicações da Comunidade Intermunicipal (CIM) Terras de Trás-os-Montes - que o Governo defina medidas específicas, uma forma diferenciadora de tratamento, para a atividade económica instalada no território e para quem queira instalar-se, como disse à Lusa o presidente, Artur Nunes.

A falta de gente combate-se, segundo o representante, com a criação de emprego, só possível com medidas concretas, como a proposta da CIM de redução do preço da energia para empresas instaladas e futuros investimentos na região.

Mas falta também, sublinhou, terminar aquilo que está por fazer na região ao nível das acessibilidades entre municípios e transfronteiriças, com novas reivindicações, como a ferrovia entre Leixões, no Porto, e Zamora, em Espanha, e voltar a olhar para as linhas encerradas na região.

A CIM reclama ainda o reforço do aeródromo de Bragança como complemento ao Aeroporto Sá Carneiro, no Porto, e a criação de uma plataforma logística, um centro de distribuição a partir do distrito de Bragança.

A Comunidade Intermunicipal tem feito chegar estas reivindicações ao poder central e aguarda, agora, para saber se são atendidas pela versão final do Plano Nacional de Investimentos.

 

TEXTO: Helena Fidalgo

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