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Prof. Adriano Moreira

Com uma longa história ligada à advocacia, ao Estado Novo, desde os tempos do Ultramar, em que foi ministro de Salazar, tendo continuado ligado à política já depois do 25 de Abril e já com quase um século de vida, nas últimas décadas Adriano Moreira distinguiu-se pela sua exemplar carreira enquanto estudioso, estadista e professor catedrático de Ciências Políticas e Relações Internacionais. Em suma, o percurso d' "O" Professor fala por si e as suas opiniões contam e encontram eco por todo o País.

OS POPULISMOS E AS ELEIÇÕES

Segundo Guy Hermet, a palavra “populisme” apareceu recolhida pelos dicionários franceses em 1929, embora identifique acontecimentos anteriores que podem ser acolhidos pelo conceito, apontando designadamente o pensamento de Alexandre Herzen (1812-1870) que, diz, professou um socialismo utópico marcado por cristianismo”; também recorda, entre outros, o People’s Party americano, nascido em 1892, mais reformista do que revolucionário, mas desafiante dos partidos já então dominantes, republicano e democrata, responsabilizados por uma decadência nacional. Talvez possa admitir-se que os movimentos totalitários que antecedem a guerra de 1939-1945, com destaque para Mussolini e Hitler, animados pela tendência de George Sorel, crítico das tradições democrática e marxista, e pela síntese da celebre conclusão de Benedetto Croce de que “decididamente, a democracia é o fim! É o rebanho conduzindo o pastor, é o mundo invertido, é a desordem, a mediocridade e a imbecilidade organizada”. A breve lembrança destes factos é apenas para avaliar alguma relação com desafios populistas da atualidade, sobretudo no espaço ocidental. Em primeiro lugar, parece inegável alguma especificidade numa componente dessa corrente, quando o fenómeno avulta à medida que a passada proeminência ocidental se reconhece atingida.

O atual afastamento dos EUA da União Europeia não impede que seja também crescente a preocupação dos governos com a anarquia das migrações, com o Islão a atingir as suas culturas, economia, e segurança. Quando o Presidente Trump conseguiu a eleição, foi elevando a voz contra a “elite” de Washington acusada de não confiável, protetora dos que exploram os desprotegidos e atingidos pelas migrações descontroladas. Ao adotar o objetivo “Make America Great Again” esclareceu, numa entrevista de Novembro de 2017, à Fox News, quando interrogado sobre a demora de prometidas reformas, que: “vou dizer-vos uma coisa boa: o que conta, sou eu, sou o único que conta”. O direito internacional, os compromissos assumidos pelo Estado, e a prática de usar o twiter compulsivamente, apontam para o modelo do século passado, dos que se proclamavam grandes timoneiros. Nas duas Europas, a democrática e a soviética, unificadas depois da queda do Muro de Berlim, o populismo da metade dominada pela Rússia, e que torna problemático o teor das eleições deste ano, parece inspirado pelo facto de terem passado meio século a tentar recuperar a soberania, que lhes fora retirada, para depois interpretarem as limitações da cooperação da União como um protecionismo, que tanto aponta para recusar a União, como para a reformar, de qualquer modo atingindo o modelo cooperante (só a águia voa sozinha) dos democratas europeus, não podendo ignorar que o Brexit britânico, um Estado que não é nacional e tem a experiência de conseguir a unidade pela cooperação baseada na igual dignidade, provocou a maior crise da unidade europeia e da confiabilidade dos 27, pela deficiente informação com que foi mobilizado o seu eleitorado chamado ao plebiscito. Mas o populismo que tende para mais alarmante, é o que em França apareceu, logo violento, com os Gilets Jaunes, que desenvolvem uma ação movida em parte pela crise das migrações, pelo receio das minorias multiplicarem as “colónias interiores”, pelo mercado de trabalho perturbado, e assim por diante, mas com organizadores identificados pelos observadores, mas que recusam essa qualificação e portanto responsabilidade pelas violências.

O talvez último corolário é o aparecimento de “um coletivo que apela à criação de uma assembleia de cidadãos”, tirados à sorte, e representativos da sociedade francesa. É de temer que, se os fiéis do projeto europeu não orientarem as eleições pela autenticidade reconhecida, pelos eleitores, a unidade europeia renove as debilidades dos projetos passados e não conseguidos. Não pode deixar de exigir meditação, recordar que, no curto prazo de uma presidência esperançosa da Comissão, esta termine afinal num ambiente de inquietante perspetiva sobre os resultados das eleições que se aproximam; enfrentando um Brexit que é tão perturbador executado, com acordo ou sem ele, antes das eleições, como se forem fragilmente participadas por uma Grã-Bretanha a usar o espaço alargado sem saber o ponto final que espera. Nem sequer consente confiança de segurança nos valores cimeiros da União, o facto de a crise estar a colocar em evidência que os vários eleitorados estão a recuperar a memória do passado; a meia Europa ocidental com memória dos fundadores convertidos à cooperação democrática, a meia Europa do leste a recordar meio século de luta pela recuperação da soberania perdida, e a confundir a cooperação em liberdade com protecionismo. Um equívoco a declarar com firmeza.

 

Jornal “Kapital do NordestE”

Abril de 2019


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